Da Poética em Vinicius de Moraes
no poema "A Mulher Que Passa",
Da poética em Vinicius de Moraes ninguém duvide. Sonetista apaixonado e apaixonante. Danusa Leão, em seu livro "Quase Tudo" revela os bastidores da vida de Vinicius de Moraes. Nada que já não se soubesse. Referi, apenas, por que chamou a lembrança.
Vinicius como sempre apaixonado ao extremo. Quando não estava enclausurado vivendo uma paixão, estava pelos bares e calçadas procurando uma nova paixão.
Este poema bem reflete o estado sempre apaixonado de Vinicius.
"Meu Deus! Eu quero a mulher que passa". Sinta o lirismo, a busca errante.
Várias leituras se pode inferir. Perceba a mudança verbo-pronominal impecável. Ora a mulher que passa é "ela", terceira pessoa do singular; ora a mulher que passa é "tu", segunda pessoa do singular. Vinicius alterna tais nuances no decorrer do poema, findando na terceira pessoa do singular, representando a ausência e a distância do ser amado. No entanto, o poema é leve, como se fosse uma brincadeira, um exercício literário.
Perceba, na estrofe final, no primeiro verso, o trocadilho: "Que fica e passa" com "que pacifica". E continua, agora, sério a constatar o inexorável: "Que tanto é pura como devassa! // Que bóia leve como a cortiça;", findando com o que poderíamos dizer, num verso cínico: // "E tem raízes como a fumaça."
Cremos que Vinicius utilizou-se desse poema referindo-se aos seus amores já passados, findos, acabados, replicando a sua paixão duradoura -- ainda -- com a efemeridade das paixões femininas. Ter "raízes como a fumaça" é um fecho perfeito a comprovar nossa assertiva.
(Lustato Tenterrara)
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referente a:
"A Mulher Que Passa"
Vinicius de Moraes
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"Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios,
Tem sete cores nos seus cabelos,
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas.
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia;
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas!
Que vens e passas, que me sacias:
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida,
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida,
Para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora.
A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacifica;
Que é tanto pura como devassa!
Que bóia leve como a cortiça;
E tem raízes como a fumaça."
Vinicius de Moraes
E agora? Contei 34 versos.
Estrofes capengas como chamam os ingleses et puristas;
uns pensando que os mares todos são seus;
outros crendo.
Sabia que existe um soneto denominado "estrambótico"
onde é acrescentado um verso final solitário.
Bom quem quiser dizer que esse belíssimo poema não é um soneto, pode dizer. Mas eu preferiria dizer tratar-se de um Soneto Hours Concurs, um Soneto Viniciusiano, afinal, esse poema declamado pelo Poeta ainda reverbera nos meus ouvidos, de um Long-Play de poemas declamados, que ouvi ainda criança-adolescente.
Não lembro dele "cantado". Mas declamado por Vinícius de Moraes, posso assegurar, é música pura, é luz, é divindade.
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