Memórias de um Soldado Brasileiro
a Serviço da ONU, no Haiti (Elmano Critilo de Dirceu)
I
Carandiru não é o Haiti...
Mas o Haiti é pior do que Carandiru. Eu não pensava nisso. Aliás,
com apenas 19 anos, pouco resta para pensar, além de umas
boas gatas, sexo ardente e descobertas sensoriais corporais.
Olho para o céu. Parece o mesmo céu do Piauí. Mas a multidão de
famintos e sedentos e morimbundos trás-me de volta à realidade.
Como foi que eu vim parar aqui mesmo?
II
Não faz nem um ano, Paulo alistara-se no Exército Brasileiro. De
compleição forte e saudável, foi logo integrado às forças armadas.
Dali a integrar as forças da ONU, foi um passo.
Os seus pensamentos vão da incredulidade à constatação em
microssegundos, entre o iniciar e o terminar de um gralhar
daqueles pássaros distantes e estranhos, todo o episódio,
desde o início, passa pelos seus pensamentos.
Não faz sentido, em sua cabeça, tanta fome, miséria, sofrimento.
"Água, minha mãezinha!" pensa Paulo, por um instante.
Lágrimas escondidas lavam seus olhos. Onde, em sua cabeça,
poderia sequer imaginar a violência que vinha presenciando
naqueles primeiros quinze dias integrado nas tropas brasileiras
a serviço da ONU, em missão de paz, naquele país.
III
A tropa perfilhada em frente ao Presidente do Brasil, passados
em revista. Momentos de pompa que não prenunciavam a Paulo
o que iria presenciar. Sorriam, todos, em que pese o temor
reverencial de uma missão, embora de paz. Tinha ouvido
alguma coisa sobre o Haiti. Pouca coisa.
IV
Mas foi somente ao desembarcar que Paulo foi tomando
consciência da calamidade pela qual vem passando a população
do Haiti. Casebres, famintos, sedentos, feridos putrefatos:
Tudo lhe era estranho. Até aqueles momentos - em que foi
apresentado a cada uma dessas calamidades e expressões
de desespero - sequer poderia imaginar desgraça daquele
naipe.
V
Crianças morimbudas, famintas e sedentas. Abandonadas...
Empurradas com os pés, por seus pais ou parentes, para que
morram fora de casa. Coisas que no Brasil seria crime mesmo
que fosse feito com um cachorro, eram fatos corriqueiros em
uma população que já estava anestesiada, sem qualquer
senso ou lembrança de sua 'humanidade'.
VI
Naquele primeiro dia no Haiti, Paulo ficava se perguntando
quais daqueles atos mais chocava suas convicções sobre os
direitos fundamentais do homem, ou até que ponto aquelas
ocorrências não seriam um crime contra a humanidade. Aonde
buscar os verdadeiros culpados? Tanto pela situação extrema
a que chegara o Haiti, quanto pela omissão em prestar-se um
efetivo socorro e ajuda àqueles seres desgraçados e despojados
de sua humanidade.
VII
Paulo nem sequer imaginava o que estava por vir, e ver, e
presenciar antes de terminar aquele seu primeiro dia
no Caribe Haitiano. Ainda não tinha ido tomar banho.
Esperava ansioso, pela sensação de lavar o seu corpo,
despojar-se da poeira que se instalara em todos os seus
poros. Também com a esperança - tênue esperança - de
que o banho, a água, lhe lavasse também os pensamentos
e expurgasse as lembranças de tantos corpos mortos por
inanição, de tantas crianças morimbundas, de tantas feridas
podres e bichentas, carnes sendo comidas vivas, pedaços
de gente.
VIII
Enfim foram dispensados, pelo comando, para um banho
rápido e o presto retorno ao alojamento para mais instruções,
que seriam passadas ainda antes do adormecer. Dirige-se
Paulo e seu pelotão ao galpão destinado ao banho da tropa.
A água começa a molhar seu corpo. Ensaboa-se, esfrega o
corpo mais que o habitual. Começa a molhar-se
novamente para retirar o sabão do corpo. Sente a poeira
e sujeira saindo de seu corpo. Seus pensamentos e lembranças
daquele dia, também.
IX
Nesse momento começa a ouvir um barulho de multidão, no
lado de fora dos muros da unidade onde instalada a tropa.
Um barulho que veio aumentando, de baldes e panelas sendo
batidas umas contra as outras. Paulo começa a vislumbrar os
gritos na multidão. São gritos de aviso, de uns para os outros:
"Água, água! Hora do banho, hora do banho!", grita a população
de famintos que se instalara do lado de fora do quartel. Ainda
não entendera, Paulo, o que estava de fato ocorrendo.
X
Correram, Paulo e toda a tropa, até os portões. Metralhadoras
e fuzis à mão, enquanto a população 'sedenta' corria, e passava
ao largo, com seus baldes e panelas em direção ao rego, esgoto,
por onde escorria a água utilizada no banho. Foi só então que Paulo
percebeu, em alguns daqueles gritos morimbundos, expressões
frenéticas de alegria. Mal enchiam seus utensílhos, logo
começavam a beber com sofreguidão aquela água de esgoto,
misturada com sabão, poeira, urina e - ainda - com as lembranças
e pensamentos de Paulo.
XI
De nada adiantara o banho de Paulo ter lavado e expurgado
tanto a sujeira quanto seus pensamentos e lembranças daquele
seu primeiro dia. Retornaram, todos aqueles pensares, em forma
de fantasmas, à noite, enquanto dormia e revirava-se com a visão
daquelas pessoas bebendo água suja, com sabão, do esgoto,
como se fosse água mineral gelada.
XII
Depois daquele primeiro banho, toda a tropa passou a primeira
semana apenas asseando-se, sem utilizar sabão, na esperança
de que a água do esgoto ficasse menos suja, para que aquelas
pessoas e crianças pudessem beber água sem sabão. Apenas
uma bucha, levada do Piauí, socorrera-o, para esfregar-se.
XIII
Aquela ave estranha e distante faz um outro gralhar, trazendo-o
de volta à realidade atual. Paulo enxuga uma lágrima teimosa,
enquanto observa as crianças correrem, em algazarra e gritos
alegres e de satisfação, com panelas, copos ou qualquer outra
coisa que sirva para armazenar água, e com aqueles - agora
familiares - gritos: "Água! Água!... Hora do banho... Hora
do banho!". Não entende Paulo por que, já passadas duas
semanas que sua tropa chegou ao Haiti, aquelas pessoas ainda
continuam sem água potável, correndo em direção ao esgoto,
para matar a sede.
É por que Paulo não sabe, mas essa falta de vergonha dos
dirigentes dos países ricos, não tem só quinze dias de existência.
Os haitianos já lutam por um copo de água para beber há muito,
muito tempo. E já estão bestializados. Anestesiados pelo sofrimento
próprio e de seus familiares, tanto, que nem sabem, nem têm
mais referência, sobre o verdadeiro sentido do que seja ou venha
a ser humanidade. Nem a palavra; Nem o conceito. (Elmano Critilo de Dirceu)
"Mulher, teu nome é desejo...
Maravilhas...
Andar nos Céus!" (Lustato Tenterrara)
"Viva o Povo Brasileiro!
E a mulher... Meu Deus...
A Mulher!" (Lustato Tenterrara)
Ah! Uma luz no fim do túnel!
Há uma luz no fim do túnel.
Dedicado à luz do fim do túnel. (Lustato Tenterrara) http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/949055 Manifesto contra Propaganda de Cigarros e Bebidas Alcóolicas:
Ah! Uma Luz no Fim do Túnel!
--> Há Uma Luz no Fim do Túnel.
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1. Todo radicalismo é errado. E nesse ponto, sou totalmente radical;
2. O Estado Policial se instala aos poucos; Senão é golpe de Estado.
3. Leis autoritárias + Polícia despreparada e mal paga = corrupção;
4. Do jeito que o Direito Penal funciona no Brasil, só fica preso pobre. E muito tempo.
5. Lei Seca sempre é igual a corrupção. E não educa. Deseduca. Corrompe.
6. O correto era proibir todo tipo de propaganda de álcool e cigarros.
E fazer cumprir a lei anterior, que nunca foi aplicada efetivamente. Bem
lembra Ary Bergher, in http://www.conjur.com.br/static/text/69002,1
"Portanto, da recusa a se submeter aos testes de alcoolemia nenhuma penalidade poderá recair
sobre o condutor de veículo automotor, forte o entendimento de que ninguém está obrigado a produzir,
e nesse caso de forma antecipada, provas contra si mesmo; daí decorrendo, ainda, que o parágrafo
3º do artigo 277 do CTB é inconstitucional, por ofensa ao artigo 5º, LVII e LXIII,da Constituição da
República, do artigo 8, 2,g, da Convenção Americana sobre Direitos Humanos e do artigo 14, 3,g,
do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos."
No entanto, do jeito que a lei seca foi implantada,
parte-se da liberação geral para a proibição geral.
Isso é RADICALISMO. 7. Volta para o item 1.
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